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Aquiraz, nossa cidade histórica
Ana Miranda

 1726. Aquiraz se sentia perdida, não era mais a cabeça da Capitania do Ceará Grande. Podia progredir, talvez, como um centro produtor de farinha, carne, açúcar, algodão. Mas não como um centro educacional. Os moradores, como nas outras vilas, eram iletrados na maioria, parece que havia uma pequena escola oficial, em que o secretário da câmara dava aulas. Porém, em 1724, só um vereador sabia escrever.

 Então chegaram os jesuítas em Aquiraz, no ano de 1727. Receberam de um coronel um terreno na vila, bem maior e melhor do que o que ocupavam, em Fortaleza. E o superior, padre João Guedes, mandou levantar em Aquiraz um hospício, nome que na época significava residência principal da missão. Ali, missionários vinham recuperar suas forças para prosseguirem na catequese em lugares mais distantes, na capitania. Era também um centro de ensino, para formar novos padres, e abrigava filhos de famílias abastadas da capitania para serem letrados e educados. E alunos índios, pobres, órfãos. Aquiraz tinha, então, potencial para se tornar um centro de inteligência, de estudos, lugar apropriado até para uma universidade.

Mas, numa noite de Natal, os jesuítas foram presos e deportados, por ordem do marquês de Pombal. Reza a tradição que parte das riquezas dos padres está escondida em algum recanto ou enterrada sob a antiga habitação. Isso simboliza uma esperança do povo na permanência das riquezas jesuíticas, que eram, acima de tudo, o dom de educadores e a erudição. Mais uma vez o sonho da vila era devastado. Hoje a cidade está aqui, ainda sonhando e descobrindo sua vocação. E sua vocação é o turismo histórico.

 Aquiraz é a nossa cidade histórica, assim como Parati é a do Rio, e Ouro Preto, de Minas. Não é como essas cidades, repletas de visitantes que caminham pelas ruas ladeadas de cafés, restaurantes, lojas de artesanato, com museus, teatros, bibliotecas, repúblicas, canteiros de flores, até neve… Mas é linda, pequena, acolhedora, perto de Fortaleza e do aeroporto, diante da mais bela praia de um sonho bucólico: Prainha. Teve a sorte de não ser devastada pela riqueza, não chegaram nem prédios nem carros, nem excesso de moradores. A qualidade de vida é bem maior do que nas cidades grandes, apesar de sofrer alguns dos mesmos problemas. A cidade tem relíquias que estão ali, resistindo ao tempo, à ambição. Em tudo o passado respira.

No modelo da cidade, o mesmo das reduções jesuíticas, com a igreja diante da praça ladeada de casas, o centro da vila se estende aos pés de Deus. Das casas um pouco portuguesas, um pouco sertanejas, algumas ainda guardam a fachada antiga, de quando moravam ali fidalgos, funcionários da Coroa, militares, comerciantes, famílias com seus escravos indígenas, ou mesmo refugiados. Os que habitam essas casas, hoje, são de famílias antigas, nativos, uma gente calma, que ainda costuma botar cadeiras na calçada ao entardecer e ficar ali, conversando, observando o pouco movimento. Há a igreja com suas portas belíssimas e os famosos painéis que estão sendo restaurados. Há a casa do capitão-mor, que estava ali em 1713 quando era o palácio do governo, uma casa singela para os olhos de hoje. Há um paredão que restou do seminário dos jesuítas, e a Câmara e Cadeia, onde está hoje o Museu Sacro, prédio bem antigo e bonito. E o Mercado de Carnes, do século 19, com tantas portas fechadas, onde deveriam estar rendeiras e ceramistas e cesteiros e todo artesão e um bom café para atrair fregueses. Essas coisas dão vida e trazem riqueza para a cidade. Na rua principal, por exemplo, há um senhor que fabrica fofas, umas roscas de goma deliciosas e tradicionais. Todos os dias, de manhã e no fim da tarde, sai uma fornada que é logo disputada. Tenho um amigo que de vez em quando vem de Fortaleza só para comprar um saco de fofas.

E agora a cidade tem a Festa Literária de Aquiraz, FLAQ. É feita nos moldes da festa em Parati, mais modesta, mas muito acolhedora. Com grande esforço, alguns pioneiros, na maioria mulheres, se juntou para realizar a festa, que foi linda. Aconteceu num parque ecológico da família Targino, onde há um nítido sentimento de preservação histórica e da natureza. Ali se reuniram alguns escritores brasileiros e sul-americanos, diante de um auditório sempre lotado, a maioria de professores. Muito se falou, muito se construiu naqueles instantes de encanto e união. Além das festas tradicionais, dos monumentos históricos, da bela natureza, Aquiraz encontra uma nova vitalidade. Um novo caminho.